El Niño: extremos climáticos desafiam biodiversidade dos biomas brasileiros

Fenômeno pode alterar regime de chuvas e ampliar riscos nos ecossistemas, recursos e produção rural

Em junho de 2026, o El Niño foi oficialmente confirmado, com previsão de permanência até o início de 2027. O fenômeno é caracterizado como o aquecimento das águas do Pacífico Equatorial, capaz de provocar alterações na circulação atmosférica e no regime de precipitações em diferentes partes do mundo. A previsão do Painel El Niño 2026-2027 é que ele atinja seu ápice entre a primavera e o verão.

Com a extensão territorial e diversidade climática do Brasil, é esperado que os efeitos do El Niño tomem contornos diferentes em cada bioma e região do país. Enquanto o centro-norte pode sofrer com as secas e ondas de calor, o sul pode enfrentar os perigos do excesso de chuvas.

O fator comum é que, em todos os casos, a conservação da vegetação nativa torna-se fundamental para a capacidade dos territórios de enfrentar a instabilidade climática. É nesse contexto que o Programa Rural Sustentável atua, desde 2012, nos biomas Cerrado, Amazônia, Mata Atlântica e Caatinga, buscando contribuir para o enfrentamento das mudanças climáticas e fortalecer a capacidade dos territórios de lidar com fenômenos climáticos como o El Niño. Por meio de projetos e diferentes frentes de atuação, o PRS apoia produtores rurais e extrativistas com conhecimentos, tecnologias e ferramentas para uma produção mais sustentável e resiliente.

Cerrado: irregularidades das chuvas e risco para a produção agrícola

No Cerrado, o El Niño é comumente responsável pela alteração no regime de chuvas. Análises de eventos anteriores mostram que o bioma vem registrando redução da precipitação em episódios de El Niño mais intensos. Segundo o MapBiomas, a seca se acentuou a cada um dos três eventos recentes (entre 1997/1998, 2015/2016 e 2023/2024), com foco especial nas áreas de vegetação nativa.

Com a queda na cobertura das áreas naturais, o território fica completamente exposto aos efeitos do extremo climático. No Cerrado, isso é ainda mais grave. O bioma menos protegido do país, e mais afetado pela ação humana, já perdeu mais de 50% do total original do seu território. Dessa mudança, a vegetação nativa sofreu uma perda de 34%, equivalente a 51,7 milhões de hectares, entre 1985 e 2025. Esse total acumulado perde apenas para a Amazônia, que perdeu 53,9 milhões de hectares.

A perda de vegetação nativa modifica a paisagem justamente em um momento em que o território precisa lidar com temperaturas elevadas, menor disponibilidade hídrica e maior risco de incêndios. A manutenção de áreas naturais, portanto, contribui para preservar as condições que sustentam a produção e os recursos dos quais ela depende.

Para quem produz, o problema não está apenas na quantidade total de chuva, mas também na sua distribuição ao longo da safra. Em junho, o agrometeorologista Marco Antônio dos Santos, da Rural Clima, apontou a possibilidade de chuvas irregulares no início da temporada, intercaladas com períodos de estiagem e temperaturas elevadas. Nesse cenário, a soja pode ter seu calendário de plantio afetado e, consequentemente, atrasar a semeadura do milho de segunda safra, reduzindo a janela disponível para o desenvolvimento da cultura.

O risco é alto, visto que o Cerrado concentra uma parcela expressiva da produção agrícola brasileira. O milho de segunda safra aparece entre as culturas mais vulneráveis ao cenário projetado para 2026/2027, justamente pela possibilidade de uma combinação entre plantio tardio e encerramento antecipado das chuvas.

Nesse ponto, ações como a assistência técnica e extensão rural (ATER) ganham importância. A adoção de práticas de manejo adequadas às condições climáticas, preservando o solo, conservando a água e diversificando os sistemas produtivos, tem o poder de ampliar a resposta e a resiliência das propriedades diante de períodos de seca.

O Programa Rural Sustentável – Cerrado (PRS-Cerrado) atuou, durante sete anos, diretamente com a ATER, perpetuando práticas sustentáveis para os produtores rurais que convivem com o Cerrado. Encerrado em agosto de 2026, o projeto impactou mais de 11 mil agricultores, deixando 50 mil hectares de terra sob o manejo sustentável. Saiba mais aqui.

Em um cenário de extremos mais frequentes, conservar a vegetação que permanece e recuperar áreas estratégicas pode significar também aumentar a capacidade de produção e de permanência no território.

Amazônia: menos chuva, rios mais baixos e impactos nas comunidades

Na Amazônia, a chegada de um super El Niño pode comprometer um recurso essencial para a vida no território: o acesso à água. A previsão de redução das chuvas na região Norte pode aumentar o risco de incêndios florestais, levar à queda dos níveis dos rios, afetar o transporte – que acontece em grande parte pelos rios – as atividades produtivas e o abastecimento de comunidades que já se encontram em situação de vulnerabilidade social, como indígenas, ribeirinhas, quilombolas e outras tradicionais. Essas são algumas das consequências apontadas por uma nota técnica conjunta do INPE, INMET, Funceme e Censipam sobre o possível El Niño de 2026.

O cenário merece atenção porque a Amazônia já passou por períodos de forte estiagem nos últimos anos. Entre 2023 e 2024, uma seca severa afetou diferentes áreas do bioma, com impactos sobre comunidades, transporte, abastecimento e produção. Pelas palavras de William Carlos, na época, associado à Associação dos Produtores Rurais do Setor São José Organização Socioprodutiva (OSP), parceira do projeto no Amazonas. “A seca tem afetado em tudo, na produção dos alimentos e na questão de transportar a produção até a cidade. Têm muitas comunidades que ficam sem como navegar pelos rios, e isso encarece a produção”. E esses efeitos permaneceram pelos anos seguintes.

Segundo um estudo publicado na revista PNAS, destacado pela Folha de S.Paulo, estima que cerca de 53% das áreas intactas da Amazônia atingidas pela seca associada ao último El Niño (2023-2024) podem não se recuperar mesmo após sete anos.

É nesse contexto que as projeções climáticas para 2026 chamam atenção. A floresta ainda não se recuperou dos efeitos da seca dos últimos anos, mas, uma nota técnica divulgada pelo Cemaden já apontou a possibilidade do fenômeno alcançar intensidade comparável aos maiores eventos já registrados. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) elevou para 81% a probabilidade de um evento “muito forte” entre os meses de outubro e dezembro.

Os efeitos de um El Niño aparecem de formas diferentes em cada região. Por isso, o enfrentamento carece de ações coordenadas entre poder público, organizações locais, produtores, instituições de pesquisa e outros atores, considerando as características e necessidades de cada território. O PRS – Amazônia não atua diretamente contra o El Niño, mas contribui para que produtores, organizações e outros atores dos territórios tenham mais conhecimento, estrutura e ferramentas para lidar com os desafios que fenômenos climáticos extremos como esse podem trazer. Saiba mais aqui.

Diante de novos períodos de seca extrema e de seus impactos sobre a floresta e as populações amazônicas, é crucial antecipar riscos, que podem ser irreversíveis. As projeções pedem urgentemente ações de adaptação, conservação e uma produção mais sustentável e resiliente, para que comunidades, produtores e organizações estejam mais preparados para enfrentar os novos desafios impostos pelas mudanças climáticas.

Mata Atlântica: a floresta é proteção diante dos extremos

Na Mata Atlântica, o cenário é ainda mais complexo. Os efeitos do El Niño atravessam o bioma marcado pelas décadas de intensa devastação e com uma cobertura original reduzida a apenas 24%.

Segundo dados do SOS Mata Atlântica, ele ocupa cerca de 15% do território brasileiro, cobrindo 17 estados e mais de 70% da população brasileira. Não apenas isso, mas grande parte da economia brasileira tem suas bases na região que concentra, por exemplo, metade da produção agropecuária e de alimentos do país, além de nove das nossas 12 regiões hidrográficas.

Ou seja, as alterações no regime de chuvas e na disponibilidade de água podem produzir efeitos que ultrapassam os limites da própria floresta.

Mas o resultado não é sentido da mesma forma em toda a extensão do bioma, também por sua extensão. O levantamento do MapBiomas sobre os três últimos eventos fortes mostra aumento das chuvas na porção sul do bioma, enquanto, no norte, a seca se intensificou a cada novo episódio.

Essa diferença regional ajuda a compreender por que a conservação da Mata Atlântica é também uma estratégia de adaptação climática. As florestas protegem nascentes, favorecem a infiltração da água no solo, reduzem processos erosivos e contribuem para a estabilidade de encostas. Durante períodos de chuva intensa, ajudam a diminuir o escoamento superficial que alimenta enchentes e deslizamentos. Em períodos de estiagem, contribuem para a manutenção da disponibilidade hídrica.

O problema é que essa proteção está distribuída sobre uma paisagem altamente fragmentada. Ainda segundo o SOS Mata Atlântica, apenas 12,4% da cobertura original da vegetação do bioma corresponde a florestas maduras. A fragmentação reduz a capacidade de a floresta prestar integralmente seus serviços ecossistêmicos e aumenta a vulnerabilidade dos territórios diante de eventos extremos.

Como um lado positivo, o Sistema de Alertas de Desmatamento da Mata Atlântica registrou queda de 28% no desmatamento do bioma em 2025, enquanto o Atlas dos Remanescentes Florestais apontou redução de 40% na supressão de florestas maduras. Isso não elimina a gravidade da situação. A recuperação de áreas degradadas e de conexão entre fragmentos florestais seguem fundamentais para a sobrevivência da região e seus dependentes.

A floresta não impede a ocorrência desses fenômenos, mas pode reduzir seus impactos sobre a água, o solo e as populações que vivem em seu entorno.

Caatinga: seca e calor ampliam desafios para a produção rural

Já na Caatinga, os efeitos do El Niño somam-se às condições climáticas desafiadoras do semiárido. Redução das chuvas, calor extremo e escassez de água estão entre os principais riscos associados ao fenômeno na região. O alerta mais recente sobre esses riscos foi feito neste ano pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), órgão oficial da Organização das Nações Unidas (ONU).

O El Niño pode ser sentido principalmente entre outubro e maio no bioma, período que concentra grande parte das chuvas no Nordeste. Em meio às mudanças climáticas, no entanto, o cenário pode se inverter: aumentar o risco de ondas de calor e períodos de seca severos, que afetam diretamente a produção rural. Como a agricultura e a pecuária dependem da água das chuvas, períodos mais secos podem reduzir a produtividade e, consequentemente, afetar a renda das famílias sertanejas.

Um estudo da Climate Policy Initiative aponta que os agricultores familiares do bioma são os mais afetados pelas mudanças climáticas. Essa vulnerabilidade é ainda maior, por exemplo, nos municípios onde a agricultura familiar ocupa mais de 90% da área rural, que registram perdas significativas de produtividade. Além da produção, os impactos podem agravar problemas sociais, como pobreza, desemprego, desigualdade de renda, atraso escolar e até mortalidade infantil.

É diante dessas condições que o PRS – Caatinga (2019-2023) atuou no semiárido para mitigar os efeitos das mudanças climáticas, combater a pobreza e aumentar a renda de pequenos e médios agricultores. Para isso, o Projeto promoveu tecnologias de Agricultura de Baixa Emissão de Carbono (ABC), Tecnologias Agrícolas de Baixo Carbono (TecABC) e fortaleceu Arranjos Produtivos Locais (APLs), aproximando produtores e outros atores para estimular soluções adaptadas às condições climáticas. 

Na prática, as ações buscaram apoiar uma produção capaz de gerar renda e contribuir para a segurança alimentar e para o uso mais sustentável dos recursos naturais da Caatinga. Esse trabalho ampliou as condições para que produtores e comunidades enfrentem períodos de seca, altas temperaturas e outros desafios de um clima imprevisível. Saiba mais aqui

Os efeitos do El Niño mostram que os seus impactos afetam a biodiversidade, mas também a produção e a vida das pessoas que dependem dos recursos naturais. Por isso, conservar, adotar práticas mais sustentáveis e ampliar o acesso a conhecimento e tecnologias são caminhos urgentes para preparar produtores e comunidades para esses desafios. 

Compartilhe:

Facebook
WhatsApp
LinkedIn